Depois de 20 anos…

Depois de 20 anos…

22 de abril de 2019 Diário de Viagem 0

Neste sábado, depois de 20 anos juntos, quando ele sentou no assento do motorista de novo e mais uma vez, e segurou no volante, eu senti a mesma emoção do primeiro dia em que nos encontramos.

Naquele dia de tarde, logo depois do almoço, ele se aproximou de mim, olhou-me de forma geral, sem reparar nos detalhes, abriu a porta e sentou no acento do motorista. Notei ele apreciando os instrumentos e o relógio que estava funcionando e marcava a hora do momento; eu notei ele conferindo a hora do meu relógio com o relógio dele, depois ele olhando a vida através dos espelhos retrovisores e então ele pousou suas mãos no meu volante. 

Senti suas mãos macias acariciando o plástico do volante, os dedos reconhecendo o logo da Land Rover no centro e então ele segurou mais firme e… não soltou. Foram intermináveis segundos e então eu soube naquele momento que ele seria a pessoa que cuidaria de mim para sempre.

A data era 17 de maio de 1997, e eu havia recebido um telefonema do vendedor da concessionaria me avisando que tinha uma Land Rover modelo Defender 110, zero km para vender. Eu queria uma, depois de ter sido proprietário de vários jipes. Uma Defender seria o fim da busca pelo jipe ideal para dar a volta ao mundo ou até a esquina para comprar pão no domingo de manhã. Seria o carro definitivo, o ultimo que eu compraria ou teria na vida. Fui até lá logo depois do almoço e o vendedor me apresentou a Defender. Eu dei uma olhada geral nela, porque eu já conhecia este veículo e sabia como ele era. Me aproximei a abri a porta do motorista. Sentei, dei uma olhada nos instrumentos, o hodômetro marcava 26 km, o relógio estava funcionando e marcava a hora local correta, os espelhos me mostravam o mundo e, eu segurei o volante.

Nesta hora o mundo parou; não consegui largar o volante. Foi o melhor volante de um carro que eu jamais havia segurado. Fudeu, eu pensei; tenho de ter esta Defender.

Não perguntei o preço. Queria saber como pagar e levá-la embora para casa. 

Depois de alguns segundos que pareciam uma eternidade, seu olhar se voltou para o vendedor e os dois se afastaram de mim. Apesar do sentimento de solidão e abandono voltar, havia uma expectativa de que a espera por um dono havia acabado. Estava estacionada junto com mais duas Defenders, iguais a mim, uma azul e outra vermelha. Eu sou verde. Todas temos os tetos brancos. Somos idênticas exceto pela cor.

Outra eternidade e ele volta sorrindo, na minha direção. Passa a mão carinhosamente na ponta do paralama, se demora por um tempo e depois vai embora.

Acho que se passaram uns dois dias e então aparece duas pessoas com as placas. Pronto, eu tive a certeza de que tinha sido vendida. Estava emplacada: tinha identidade. Podia sair dali e conhecer o mundo. Mais um dia e ele aparece de novo. Logo descubro que seu nome é Andre, e que seríamos parceiros pelo resto das nossas vidas.

Hoje está frio, mas sol. É fim de agosto e programei dirigir até Arujá e conhecer uma feira de orquídeas. A viagem de aproximadamente 60 km pela Dutra não é muito longa, principalmente depois de já termos rodado por mais de 400 mil km, mas  o conjunto da obra que é guiar uma Defender não tem preço. O volante agora está escapado de couro e o logo central é igual ao logo que fica na grade dianteira. A pegada deste volante ainda me dá tesão em ficar, simplesmente sentado, olhando o mundo através do parabrisa. 

Normalmente a pergunta seria: onde vou levar o Andre hoje, mas sempre é: onde Andre vai me levar? Algum lugar novo, desconhecido, ou algum local tipo estacionamento de shopping, ou a casa de algum amigo que eu já fui? É sempre uma surpresa, que eu tento adivinhar pela roupa que ele está vestindo ou pela carona que leva. Mesmo depois de 20 anos, ainda fico excitada com estes pensamentos; posso rodar 3 km até o supermercado ou 450 km até o Rio de Janeiro. Pode ser pela Dutra ou pelas curvas da BR101, pode ser asfalto ou uma estradinha de terra entre São Francisco Xavier e Monte Verde, nos contrafortes da Mantiqueira. Estou sempre pronta para rodar. Adoro sentir ele se aproximando, me olhando, inserindo delicadamente a chave na fechadura da porta… ambos ouvimos o “click” e pronto. O legal é que quando partimos, nos primeiros minutos, começo a perceber se vai ser perto ou longe, tipo de piso, sozinha ou acompanhada de outras Defenders, estas coisas. Também consigo perceber o humor do Andre pela forma como dirige: a pressão no acelerador, empunhadura no volante, freadas, troca de marchas… tento ser o contraponto deste momento em que estamos juntos. Sempre tento ser a parte boa do dia dele.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *